Rua Da Ponte Nova

A Rua da Ponte Nova rasgava-se desde a zona central da Rua da Bainharia (sensivelmente a meio do seu percurso), passando o Rio da Vila (na ponte que lhe dava o nome) e subindo pelo morro fronteiro á Sé, a caminho da Porta do Olival. A Rua da Ponte Nova seria grandemente prejudicada com a abertura da Rua Mouzinho da Silveira, que com os seus 19 metros de largura veio retirar coesão e unidade a esta artéria. Regista Sousa Reis que 'Para communicar a rua do Bainharia, com a das Flores edificou se huma ponte de pedra, para atravessar o rio da Villa, d'ahi que vem o nome a esta rua.' Na realidade, o nome desta rua teve origem na existência dessa Ponte, que assegurava a comunicação entre a Rua da Banharia (e portanto o velho burgo episcopal) e o lado oposto do Rio da Vila (com a Rua de Santa Catarina das Flores e, prosseguindo no mesmo eixo da Rua da Ponte Nova, com a Rua de Ferraz, para se alcançar a Rua da Vitória). No entanto, é possível que antes dessa ponte (que significativamente chamam de novo), existisse uma outra, talvez em madeira, bem mais antiga, que definiu esse eixo de circulação. Efectivamente, a Ponte Nova, a de pedra, foi apenas construída nos inícios da segunda metade do Século XVI, em 1556-58. Ora, antes dessa data já existia aí uma ponte, que poderíamos designar de velha, e que servia, embora deficientemente, as necessidades de circulação. E a rua onde essa ponte se localizava era conhecida como a travessa da Fonte dos Ferreiros. Sublinhemos, primeiro, que a Rua da Bainharia era, inicialmente, designada por Rua de Ferrays ou seja, das ferrarias, aspecto que ajuda a enquadrar melhor essa designação toponímica. A Fonte dos Ferreiros não pode deixar de estar ligada a essa actividade que se desenrolava na vizinha Rua de Ferrays. Ora, um documento de 1532 revela que a Rua de Santa Catarina das Flores foi aberta em parte através do Campo dos Ferreiros. E, em 1551, uma carta régia refere que 'em essa cidade está uma travessa que se chama a Fonte dos Ferreiros, por onde há pouco serventia por ser muito estreita e fragosa, sendo muito necessária para serventia de duas ruas principais da cidade, a saber: a rua das Flores e a rua da Bainharia, e para muito parte da cidade, e que seria grande enobrecimento dela abrir-se na dita travessa rua pública'. Essa viela estreita, que servia mal os propósitos dos portuenses que se queriam deslocar para as bandas do Olival, seria a actual Rua da Ponte Nova, que teria sido alargada a partir dos meados do séc. XVI. No entanto, importa sublinhar que, se a queixa de 1551 diz que tinha pouca serventia por ser estreita e fragosa, e que era muito necessária para as Ruas das Flores e da Bainharia, isso é um sintoma claro de que já ali existia uma passagem, possivelmente uma ponte de madeira, também ela estreita. Não se compreenderia o lamento de 1551 se não existisse já uma comunicação entre ambas as margens do Rio da Vila. Como a designação de Rua da Ponte Nova ocorre já em 1564 é de supor que essa ponte de pedra tenha sido erguida entre 1551 e 1564. E, efectivamente, podemos com segurança precisar que a construção dessa Ponte deve ter tido lugar pouco depois de 1556. Na realidade, Horácio Marçal divulgou um documento da Rainha D. Catarina, mulher de D. João III, datado de 7 de Fevereiro de 1556, onde esta determina e autoriza a construção da Ponte Nova: 'A Rainha D. Catarina de Áustria autoriza a Câmara do Porto a realizar obras de interesse público, entre elas o de construção da ponte nova que, sobre o rio da vila, viria a ligar a Rua das Flores com (...) a Bainharia'. Trata-se de uma Carta Régia prorrogando por mais 2 anos a Imposição do Real de Casa, aplicando-a para as despesas de compra das casas e para a construção da ponte da rua que se rasgava entre a Rua da Bainharia e a Rua das Flores, e que, segundo o diploma estavam avaliadas em 200.000 Reais. Uma outra carta régia, datada de 19 de Setembro de 1558 revela que se andava a fazer a Ponte, então designada 'Ponte da Rua das Flores', e que a obra estava a ser custeada pelos rendimentos do cofre da Imposição do Sal. Segundo Horácio Marçal, '(...) A Ponte Nova , que se mostrava, de um e outro lado, definido por parapeitos de pedra, era formado apenas por um arco de meia volta.(...) Junto da ponte ou do arco, para a banda do poente, encontrava-se uma escadaria de pedra com dois lanços de degraus separados por largo patamar. No fundo do último lanço, via-se um outro arco de menores dimensões e também sobre o rio, pelo qual se passava a um outro lanço de escadas mais pequeno, que punha em comunicação a Rua da Ponte Nova, com a da Biquinha e vice-versa. Chamavam a este passadouro, Escadas da Biquinha Na Ponte Nova, o montante existia um moinho.' No que respeita ao moinho que refere Marçal, podemos adiantar que existe uma Planta, executada em 20 de Dezembro de 1819, por Luís Ignácio Barros Lima, que mostra a zona da Ponte Nova, com o respectivo moínho, escadas públicas e fonte. Ainda nas palavras de H. Marçal, '(...) A Rua da Ponte Nova, tinha o seu pavimento, de pedra miúda e de seixos. Passeios laterais, não tinha. Os prédios, apesar da estreiteza da rua, eram todos altos a alguns de boa construção, embora antigos. Novos, havia poucos. Os mais modernos, em meados do século passado, eram os que se erguiam nos dois ângulos da Bainharia, cuja construção data de 1844. Na Rua da Ponte Nova, entron-cava (e entronca) a Viela do Anjo que, tortuosamente, corria pela retaguarda das casas da Bainharia até à Rua do Souto. (...) No prédio nº 54 da Rua da Ponte Nova e na época a que nos reportamos, nasceu a II de Novembro de 1850 o insigne pintor António Carvalho da Silva Porto. (...) A Rua da Ponte Nova, era bas-tante comercial. Havia estabelecimentos de mercearia, tabernas, tendas, oficinas de torneiro e, em grande número, os lojas de roupa feita.'. Na realidade, e conforme Horácio Marçal salientou, os prédios da Rua da Ponte Nova que confinam com a Viela do Anjo e com a Rua da Bainharia são obra relativamente recente, do séc. XIX. Os prédios que outrora aí se erguiam ofereciam diversos problemas de conservação, tendo sido reconstruídos. Efectivamente, em 29 de Outubro de 1770 foi levantado um Auto de Vistoria para demolição da casa que fazia esquina da Rua da Ponte Nova com a Rua da Bainharia, a fim de se alargar a Rua da Ponte Nova e se poder melhorar as condições de trânsito. Em 9 de Julho de 1845 foi feita escritura camarária do alinhamento da Rua da Ponte Nova e parte da Rua da Bainharia, no sítio do cunhal Norte destas duas artérias, tendo para isso sido necessário derrubar uma casa que tinha frente para ambas as ruas. E, em 7 de Janeiro de 1846 seria vendido o terreno que sobrou do alinhamento da Rua da Ponte Nova a Manuel da Monta e a sua mulher; Margarida Rosa, declarando-se que o referido terreno confinava a Nascente com outra propriedade a Poente com a Rua da Ponta Nova, a Sul com a Rua da Bainharia e a Norte com outra propriedade particular. O processo para a construção desta casa dera entrada algum tempo antes na Câmara, tendo sido aprovado em 3 de Dezembro de 1846. No Livro de Plantas de Casas N.º 9, fl. 138, encontramos o desenho do alçado da casa que Manuel da Monta (ou Mouta) pretendia construir na esquina entre a Rua da Bainharia e a Rua da Ponte Nova. Desde sempre, a Rua da Ponte Nova apresentou escadas junto da Viela do Anjo, e não muito longe da Bainharia, por forma a vencer o desnível abrupto que se registava nessa zona. Efectivamente, há uma planta executada em 1821 que documenta a existência ancestral desses degraus - a 'Planta mandada fazer em acto de Vistoria para milhoramento das Escadas da Rua da Ponte Nova, por Luís Ignácio de Barros Limo, 1821'. Henrique Duarte e Sousa Reis ainda teve oportunidade de nos deixar uma descrição dessa velha ponte quinhentista, no seu manuscrito redigido em 1866, escassos dez anos antes da destruição da Ponte Nova. Nas suas palavras, 'Debaixo da ponte de pedra, chamado Ponte Nova, está huma Arca também de pedra muito bem trabalhada, e que he o receptaculo de huma porção d'agoa saloba (sic), que cahe em huma antiquissima fonte situado quozi a par dessa mesma Arca: esta agoa tiverão a sempre por milagroza para as molestias d'olhos, e da sua bica veio o nome a esta rua, que he toda ou quazi toda cortada pelo rio da Villa.'. A fonte a que se refere Sousa Reis encontra-se já documentada em 1669, em diploma que revela que 'por baixo da dita rua está uma fonte, tem meio manilha de água muito fria e a sua arca é muito antiga e feita de cantaria, tem por dentro duas rosas e serafins'. A Ponte Nova, que lhe deu o nome, foi destruída com a criação da Rua de Mouzinho da Silveira em 1875, quando deixou de ser necessária para transpor o Rio da Vila. Com a criação da Rua Mouzinho da Silveira seriam irremediavelmente alteradas as construções da Rua da Ponte Nova. E, efectivamente, como já referimos, no troço desta rua que cabe analisar neste Projecto as casas devem ser atribuídas ao último quartel do Séc. XIX. ( Bairro da Sé - Monografias )